“MESMO CAMINHO…” SERÁ?
- Marco A. B. Argento
- 27 de jul. de 2023
- 6 min de leitura
INTRODUÇÃO
Em “andanças” da vida, deparei-me em Serra Negra (SP). Mais especificamente, deparei-me com o “hábito” de andar com minha cachorrinha “sempre” próximo ao entardecer. Percorremos o “mesmo caminho” diariamente. Contudo, ao andar pelo trajeto, “percebi” (foi evocado o “perceber” que), apesar de andar no “mesmo trecho”, este não era idêntico ao do dia anterior - nem seria idêntico ao do dia ulterior.
“Enlouqueci?” Creio que (ainda rs) não. Na verdade, acho que “filosofei” a partir de pressupostos do Behaviorismo Radical de Skinner (1976/2011). Fique comigo para acompanhar os argumentos / questionamentos que colocam em xeque a ideia de “mesmice” dos “mesmos caminhos”.
PRIMEIRO, UM PASSO EM DIREÇÃO À ETIMOLOGIA
“Quando digo “mesmo”, o que esta palavra define?” Segundo o dicionário Porto Editora (n.d.), “mesmo” significa “1. não-outro; de igual identidade”. Vejamos. Na definição de “mesmo”, surge a palavra “igual”, derivada do latim “aequale”, que significa “1. que tem a mesma grandeza ou o mesmo valor”. (PORTO EDITORA, n.d.).
No inglês, não há o uso da palavra “mesmo”. Conforme o Porto Editora (n.d.), “mesmo” pode ser traduzido por “same”. “Same” apresenta derivações do alemão “zusammen”, que significa “together” (ou seja, “junto”). Por sua vez, “zusammen” apresenta raiz etimológica em “sem-”, que significa “one, as one, together with” (ou seja, “um, como um, junto com”). (ETYMONLINE, n.d.).
Aqui, nota-se uma diferença entre a base latina (“mesmo”) e germânica (“same”): “junto, um”. Trata-se de uma sutil distinção que torna os termos “mesmo” e “same” equivalentes, mas não “idênticos”. Poeticamente, utilizarei a origem germânica na última seção do presente texto. Em resumo, temos que “mesmo” / “same” equivale à “igual” e “equal” - termos que apresentam raíz etimológica idêntica (ex. latim “aequale”).
Já foi oferecida a definição de “igual” no dicionário português. Mas, vale destacar a definição no inglês, que é ainda mais específica. Segundo Etymonline (n.d.), “equal” significa “identical in amount, extent or portion” (ou seja, “idêntico em quantidade, extensão ou porção”). Como essa definição, precisamente, refere-se às dimensões físicas de eventos, utilizarei esta para as argumentações seguintes. “‘Mesmo caminho’, então, seria equivalente a dizer “caminhos idênticos em quantidade, extensão ou porção?” Em caso afirmativo, realizo outra indagação: “será mesmo que meu caminho de ontem apresenta quantidade, extensão ou porção idêntica ao caminho de hoje ou ao de amanhã?” Vou te dar um spoiler do que vem na sequência: “matematicamente, não”.
QUANTIDADES, EXTENSÕES E PORÇÕES “DISTINTAS”
O último termo deste título foi utilizado, num primeiro momento, de modo “intuitivo”. Porém, após pesquisar sua definição, provou-se um uso certeiro. “Distinto” ou “distinct” significa “not identical; not the same”, conforme Etymonline (n.d.). “Estaria eu sendo radical demais ao propor que o ‘mesmo caminho’, na verdade, ‘não é o mesmo caminho’?” Sim, é esse o ponto e vou demonstrar as razões para tal posicionamento.
As minhas reflexões sobre estar andando por “caminhos distintos”, apesar de estar no “mesmo caminho”, iniciaram a partir de observações de eventos que ocorriam ao meu redor. O primeiro evento observado foi: mudança nos comportamentos de minha cachorra ao longo dos passeios. Por exemplo, observei que, em um dia, ela andava em uma direção em determinado trecho; no dia seguinte, ia na direção oposta. Em um dia, ela “travava” num ponto e o cheirava longamente, ao passo que no dia seguinte, atravessava sem parar.
“Por que havia tanta mudança nos comportamentos motores de minha cachorra se andamos ‘sempre’ pelo ‘mesmo caminho’? Notei que, com o passar dos dias, alterações mínimas no ambiente físico estavam ocorrendo, sem que eu pudesse sequer descrevê-las rapidamente; tais alterações poderiam evocar as mudanças descritas acima.
Primeiramente, notei modificações no nível de incidência solar, na temperatura média da cidade, na velocidade do vento e no horário de início de nossas caminhadas. Em relação ao ambiente social, percebi mudanças no número de pessoas que passavam por nós dois ao longo do trajeto, bem como as características físicas de tais pessoas, frequência de interações verbais gestuais e orais comigo e qualidade das atividades exercidas por tais pessoas (ex. “brincar com o filho na rua”, “visitar uma amiga”, “levar o cão para passear”, “tomar sol da tarde”.... (Neste parágrafo, descrevi ao menos oito variáveis que poderiam ser responsáveis por alterações comportamentais observadas).
Após identificar e descrever essas e outras variáveis independentes, passei a “me” observar também. Percebi que, diariamente, os meus calçados eram diferentes, as minhas camisetas eram diferentes, a força física que eu aplicava na coleira era diferente, a velocidade dos meus passos era diferente… Somado a isso, verifiquei outras condições em jogo: duração da privação de água, duração da privação de alimentos, frequência e duração de contato com outros cães e gatos (que, no caso, apresentam funções evocativas, possivelmente aversivas, de comportamentos “agressivos” da Laika, como ““latir” e “morder”), presença de patógenos no organismo…
No parágrafo anterior, descrevi outras oito variáveis que poderiam determinar alterações de comportamentos motores da Laika (buldogue francesa de 08 anos). Se eu somar com as variáveis que já haviam sido descritas, temos aqui cerca de 16 variáveis independentes físicas que poderiam determinar comportamentos motores da minha parceirinha de passeios. Veja: descrevi variáveis com quantidade, extensão ou porção mensuráveis. Embora eu não tenha, de fato, mensurado-as, de acordo com observações assistemáticas que conduzi, elas não foram idênticas de um dia para o outro.
Vale dizer que, tudo isso para compreender as determinações dos comportamentos da Laika. “E as determinações dos meus comportamentos públicos, privados, encobertos, abertos, verbais e não-verbais?”, pensei. A partir dessa lógica, não só os comportamentos da Laika foram distintos, mas os meus também.
DISTINTAS VARIÁVEIS, DISTINTOS CAMINHOS
“A partir do que apresentei na seção anterior, como posso falar em ‘mesmo caminho’ após observar alterações em múltiplas variáveis independentes físicas (naturais e sociais)?” Creio que não posso, o que me levou a refletir sobre a beleza de um “simples” caminho do dia-a-dia. “Se o ‘ mesmo caminho’ é, na verdade, um ‘distinto caminho’, o que é o ‘mesmo’ do caminho? Será que a ‘mesmice’ de eventos cotidianos, realmente, existe?
Bem, a “mesmice”, “aparentemente”, existe, uma vez que a palavra “mesmo” e “mesmice” são utilizadas no jargão popular. Contudo, diante de avaliações minuciosas entre possíveis relações funcionais entre eventos naturais / sociais e eventos comportamentais, ficou claro (ao menos para mim) que o “mesmo” e “mesmice” não são termos precisamente descritivos. Mais do que isso: são termos que podem dificultar, ou até mesmo impedir, a identificação e descrição das constantes alterações das múltiplas variáveis da vida cotidiana.
SÍNTESE DE “UM DISTINTO CAMINHO”
Esse episódio “simples” (e talvez, “trivial”), revela, para mim, a (complexa) beleza da vida diária. Se um “mesmo caminho” pode ser “distinto” no simples correr do dia e da noite, quem dirá os eventos socialmente relevantes? Quando uma pessoa em um atendimento clínico diz “Sinto o ‘mesmo’ todos os dias, sabe?”, o que será que este “mesmo” pode revelar de “distinto”? Quando alguém te convida para assistir uma peça teatral que você já assistiu, o que a “mesma” peça pode te contar sobre as vivências distintas dos personagens em determinada cena? Quando você ouve a “mesma” música na sua playlist musical, o que essa experiência pode te revelar sobre distinções na letra da canção?
Se pudesse deixar uma mensagem final a partir de “Um” (“same”) “Distinto” (“distinct”) “Caminho”, seria a seguinte: “juntamente com outra pessoa, investiguem o “mesmo”, “same”, “aequale”! Possivelmente, será um ‘caminho admirável’”. (PIEPER, 2008).
Não sei se este texto será capaz de estabelecer funções evocativas para eventos até então “neutros” de seus “mesmos caminhos” diários. Mas, se você sentir o “mesmo” de forma “distinta”, ficarei contente. Em outras palavras, se você identificar e descrever alterações mínimas em variáveis físicas de eventos naturais, sociais e comportamentais, ficarei contente.
Inspirado pelos pensamentos do filósofo pré-socrático Heráclito de Éfeso (535 a. C. - 475 a. C.), também acho que não é possível entrar no “mesmo” rio duas vezes. Primeiro, o rio não é o “mesmo” e, segundo, você não é a “mesma” pessoa. (NICOLA, 2005). Um abraço e até uma próxima caminhada (“distinta”) aos diálogos entre saberes.
REFERÊNCIAS
Dicionário da Língua Portuguesa. Porto: Porto Editora. Disponível em:<https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/> . Acesso em: 15 jul. 2023.
Dicionário de Português - Inglês. Porto: Porto Editora. Disponível em:<https://www.infopedia.pt/dicionarios/portugues-ingles/> . Acesso em: 15 de jul. 2023.
NICOLA, U. Antologia ilustrada de Filosofia: das origens à idade moderna. São Paulo, SP: Globo, 2005.
Online Etymology Dictionary (Etymonline). Disponível em: <https://www.etymonline.com/> . Acesso em: 15 jul. 2023.
PIEPER, J. O que é Filosofar? - Tradutor: Francisco de Ambrosia. São Paulo, SP: Edições Loyola, 2008. SKINNER, B. F. Sobre o Behaviorismo (1976). São Paulo, SP: Editora Cultrix, 2011.
Instagram: @psi_marcoargento
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